#01 - Saúde mental no trabalho e NR-1: seu líder também está adoecendo
A NR-1 colocou os riscos psicossociais na fiscalização e palestra motivacional não conta.
Denise Faro
7/20/20264 min ler


Oi, eu sou a Denise. Vinte e poucos anos de RH, um burnout no caminho e, daqui a pouco, 1 ano como fundadora da Mappa. Essa é a primeira edição da Mappeando: a cada quinze dias, o mundo do trabalho traduzido para quem gere pessoas. Vamos?
Daqui a pouco faz 1 ano que abri a Mappa e, nesse processo de transição, eu tinha muitas dúvidas sobre quais serviços ou produtos deveria oferecer na minha consultoria. São mais de 20 anos de carreira em RH e, sai ano, entra ano, alguns temas continuam recorrentes e atuais, por incrível que pareça. Hoje as empresas estão se adequando à atualização da NR-1, que incluiu os riscos psicossociais na fiscalização, mas há 20 anos já falávamos sobre feedback, "líder coach", escuta ativa, comunicação não violenta, entre tantos outros temas que até hoje rendem muito. Mas o que esses temas têm em comum?
Antes de responder, deixa eu me apresentar melhor. Depois de trabalhar em algumas empresas que vou chamar aqui de "negligentes com pessoas", ter um burnout e demorar a reconhecer minhas próprias atitudes, resolvi dar um basta: decidi trabalhar para mim e procurar empresas que realmente sabem que as pessoas são o seu grande diferencial e para que menos gente passe pelo que eu passei.
Agora, voltando à pergunta: todos esses temas, do feedback à NR-1, tentam dar conta da mesma coisa, a relação entre as pessoas e o trabalho. E essa relação vem mudando ao longo dos anos.
O líder virou estatística
Não é novidade que, principalmente nos últimos 2 anos, os casos de afastamento do trabalho por questões de saúde mental quase dobraram. O que muda é que, uma década atrás, a gente responsabilizava principalmente a liderança pelos altos índices de turnover e absenteísmo, e agora esse mesmo líder está nas estatísticas entre os principais afastados do trabalho.
Hoje está muito mais claro, principalmente depois do período da pandemia, que a nossa relação com o trabalho mudou e que algumas estruturas organizacionais favorecem o adoecimento das equipes. Não há líder amável e empático que retenha um empregado exausto pela sua escala de trabalho, por exemplo, ou um empregado que trabalha em uma loja que já foi assaltada diversas vezes, ou aquela pessoa que precisa entregar uma demanda que beira o impossível. Resolver esses problemas não é papel da liderança nem de uma só pessoa ou área. É uma discussão ampla, que deve envolver todas as camadas das empresas.
Chá de camomila não é NR-1
Incluir os riscos psicossociais em uma norma que existe há quase 50 anos na segurança do trabalho é uma forma de conscientizar as empresas de que, se nada for feito, as pessoas continuarão adoecendo e, pior, achando que são fracas, sem resiliência ou "mimizentas". E se você acha que cumprir as novas regras de saúde mental da NR-1 significa contratar uma palestra motivacional uma vez por ano ou dar folga no aniversário do colaborador, saiba que não é isso. O trabalhador não quer mais saber de ganhar um sachê de chá de camomila no Setembro Amarelo: ele quer flexibilidade, quer trabalhar sem microgerenciamento, quer tempo e dinheiro para viver sua vida fora do trabalho.
Quem entendeu está saindo na frente
Empresas que já entenderam isso têm saído na frente. É o caso de PMEs que conseguem flexibilizar escalas de trabalho, de empresas que fortalecem a cultura de diversidade e inclusão, que investem em clima organizacional. Resumindo: empresas que têm um RH estratégico, atualizado e atento ao movimento do mercado de trabalho, tudo isso, claro, onerando pouco a folha de pagamento e, em algumas situações, até reduzindo custos.
O foco da Mappa é compreender, traçar e trilhar um caminho para que surjam mais modelos de trabalho sustentável, digno e com propósito. Atuamos como parceira do negócio, para empresas que querem um RH estratégico com as pessoas no centro.
No mapa:
⚠ NR-1: fiscalização deixou de ser educativa. Desde 26 de maio de 2026, o auditor fiscal pode autuar empresas que não gerenciam riscos psicossociais (assédio, sobrecarga, metas inalcançáveis) no seu PGR. O período educativo de um ano acabou e o Ministério do Trabalho já avisou: não haverá novo adiamento. Leia na Contábeis
Brasil bate recorde de afastamentos por saúde mental. Foram 534,9 mil afastamentos por transtornos mentais em 2025 (+13,2% sobre 2024), com mais de R$ 3,5 bilhões pagos pelo INSS. Os casos de burnout triplicaram em dois anos: de 1.760 em 2023 para quase 7 mil em 2025. Levantamento da ANAMT
E não é só no Brasil: os gestores são os que mais sofrem. O relatório global da Gallup mostra engajamento mundial no menor nível desde 2020 — e a queda mais forte foi entre gestores (de 27% para 22%). Líderes relatam mais estresse, tristeza e solidão que suas equipes. Exatamente o que falei no ensaio: o líder virou estatística. State of the Global Workplace 2026
"Não existe saúde sem saúde mental." Organização Mundial da Saúde
A cada duas semanas vou compartilhar por aqui a Mappeando: uma curadoria dos assuntos mais relevantes do mundo do trabalho, traduzida para quem gere pessoas. Se fizer sentido para você, assina e me conta nos comentários qual tema você quer ver na próxima edição.
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