#02 - A liberdade que nem todo mundo escolheu. O mercado de “freelancer” no Brasil..

Essa é a segunda edição da Mappeando: a cada quinze dias, o mundo do trabalho traduzido para quem gere pessoas. Vamos?

MERCADO DE TRABALHO

8/4/20264 min read

Não sei se você tem observado uma insatisfação meio generalizada no mundo do trabalho. Quem está à procura de um emprego não encontra oportunidades à altura das expectativas; quem está contratando reclama que ninguém quer trabalhar; quem está em um bom emprego está olhando o mercado porque a sensação é de que os salários congelaram. Essas perspectivas coexistem e cada uma delas aponta para uma fragilidade diferente do mercado de trabalho em que estamos inseridos.

A pergunta que fica no ar é: como criar oportunidades de inserção produtiva de qualidade para um número cada vez maior de pessoas?

Quando a vaga não aparece, o trabalhador "dá um jeito"

A precarização do mercado de trabalho formal (com poucas oportunidades e salários não atrativos) impulsiona a busca dos trabalhadores por alternativas.

Não é à toa que o Brasil registrou recorde histórico em 2025, com mais de 4,6 milhões de novos pequenos negócios abertos no ano, dos quais 77% são MEIs. (Sebrae)

Em 2024, havia 1,7 milhão de trabalhadores plataformizados, um crescimento de 25,4% em relação a 2022. (Saiba mais)

Tanto o entregador de delivery ou motorista de app quanto o designer PJ de uma agência compartilham a mesma dinâmica: quem trabalha por conta própria administra sozinho os riscos que, no modelo CLT, são divididos com a empresa.

Na informalidade, o tempo parado vale zero

Estimativa de ganhos de um “freela” e um CLT

O trabalhador do mercado informal ou diarista não está necessariamente ganhando menos por dia trabalhado — ganha até mais em caixa imediato. O problema é a vulnerabilidade ao tempo. Na informalidade, o tempo parado vale zero. Mas, se no fim do mês a conta não fecha, o trabalhador procura formas de sobreviver; muitos fazem uma jornada dupla, realizando o trabalho formal CLT e complementando a renda com “freelas”, trabalhando de 12 a 14 horas por dia, ou mais.

O desafio do trabalho no Brasil é gigante. E aqui não vou me aprofundar em maneiras de reduzir a informalidade, mas vou deixar uns links no final para quem quiser saber mais.

O desafio para quem gere pessoas

A reflexão que eu quero gerar é para os empregadores e RHs que fazem a gestão de pessoas nas empresas.

No dia a dia, as empresas contratam gente diferente, operam em mercados que mudam toda hora, lidam com gerações, formatos de trabalho e expectativas cada vez mais distintas. Só que a resposta da área de gente é uma política única para todo mundo: um onboarding, um formato de avaliação, uma régua de benefício, um jeito de dar feedback. Baixa variedade de dentro tentando conter alta variedade de fora. É por isso que a mesma política que funciona para o dev sênior remoto quebra o vendedor júnior presencial.

O RH focado apenas em controle de ponto, folha de pagamento e recrutamento CLT está ficando obsoleto.

É preciso desenhar experiências para o candidato e fornecedor: tratar prestadores PJ com a mesma governança profissional dedicada a parceiros estratégicos, oferecendo metas claras em vez de controle de jornada.

Oferecer segurança e criar políticas de bem-estar que considerem o impacto da precarização na saúde mental de equipes mistas.

O RH precisa atuar como um Arquiteto de Força de Trabalho Mista (Blended Workforce): saber mapear quais capacidades devem ser internas (CLT) e quais podem ser mobilizadas sob demanda (PJ).

  • Escolha CLT quando: O trabalho exige rotina, subordinação diária, retenção de conhecimento crítico dentro da organização e construção de cultura de longo prazo. O custo CLT é o preço da estabilidade operacional e da proteção da marca contra passivos trabalhistas.

  • Escolha PJ / Freelance quando: O trabalho é por projeto delimitado (projeto com início, meio e fim), exige especialização pontual não existente na casa e o prestador possui total autonomia sobre como, quando e onde entregar.

  • O perigo do meio-termo: Tratar o PJ como CLT (cobrando horário, presença diária e exclusividade) gera um passivo trabalhista que destrói qualquer economia tributária prévia.

"Quem tem fome tem pressa." — Betinho

A fome aqui não é só a do prato. É a ânsia de dar certo, de ter um lugar ao sol, de prosperar — a mesma que faz alguém aceitar 12 horas de trabalho sem intervalo ou emendar o expediente CLT com freelas madrugada adentro. As empresas também têm as suas pressas: crescer, entregar, sobreviver. Mas não existe empresa próspera deixando para trás quem faz ela prosperar.

Você já fez freela, "bico" ou trabalhou por projetos? Como foi?

No mapa:

Señoritas Courier: Serviço de coleta e entrega de encomendas na cidade de São Paulo, feito exclusivamente de bicicleta. Ciclologística por mulheres e pessoas trans. senhoritascc.com.br

Giro Sustentável: A cooperativa nasceu do desejo de oferecer um ambiente de trabalho justo e digno para os cicloentregadores. girosustentavel.com.br

Para se aprofundar no tema da informalidade no trabalho: retratodotrabalhoinformal.com.br

A cada duas semanas vou compartilhar por aqui a Mappeando: uma curadoria dos assuntos mais relevantes do mundo do trabalho, traduzida para quem gere pessoas. Se fizer sentido para você, assina pra receber a próxima edição.

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